Em outras palavras, a eleição não foi definida apenas pelo bom desempenho de Flávio Bolsonaro em determinados estados. O resultado nacional surgiu do encontro entre dois movimentos: uma ampla vantagem de Lula no Nordeste e uma vantagem ainda maior de Flávio no restante do país.
Raio-X do 1º turno
De onde veio a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula?
O resultado nacional foi apertado, mas esconde diferenças de milhões
de votos entre as regiões. Veja os números que ajudam a explicar
o primeiro turno presidencial de 2026.
1. Apenas 1,87 ponto percentual separou os dois primeiros
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula por pouco mais de 2,2 milhões de votos.
PL
Flávio Bolsonaro
47,03%
56.104.503 votos
PT
Lula
45,16%
53.879.538 votos
Flávio 47,03%
Lula 45,16%
Outros 7,81%
2.224.965 votos
foi a diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula no resultado nacional.
2. O Nordeste deu grande vantagem a Lula, mas o restante do país compensou
A pequena diferença nacional resulta de saldos regionais muito maiores.
Nordeste
Lula +11,10 mi
Lula 63,8%
Flávio 30,9%
Sudeste
Flávio +5,66 mi
Flávio 51,4%
Lula 39,7%
Sul
Flávio +5,04 mi
Flávio 60,1%
Lula 31,3%
Centro-Oeste
Flávio +2,17 mi
Flávio 56,5%
Lula 32,6%
Norte
Flávio +459 mil
Flávio 49,2%
Lula 44,7%
3. A conta que explica o resultado
A vantagem de Lula em sua região mais forte foi superada pela soma das diferenças obtidas por Flávio nas demais regiões.
Vantagem de Lula
+11,10 mi
Nordeste
versus
Vantagem acumulada de Flávio
+13,33 mi
Sudeste + Sul + Centro-Oeste + Norte
4. Cinco estados ajudam a entender melhor o mapa
O impacto eleitoral depende do tamanho da diferença de votos, e não apenas de quem venceu em cada unidade da Federação.
Grande colégio mais equilibrado
Minas Gerais
Flávio: 48,24%
Lula: 43,33%
Diferença: 588.612 votos
Mais de 1 milhão escolheram outros candidatos
Maior vantagem de Flávio
São Paulo
Flávio: 51,93%
Lula: 38,20%
Flávio +3,42 milhões
Maior vantagem de Lula
Bahia
Lula: 66,18%
Flávio: 28,53%
Lula +3,22 milhões
Peso do Sul
Rio Grande do Sul
Flávio: 55,64%
Lula: 35,73%
Flávio +1,28 milhão
Quase empate
Amapá
Lula: 45,71%
Flávio: 45,67%
Apenas 225 votos de diferença
Terceiro candidato em destaque
Goiás
Flávio: 53,60%
Lula: 31,06%
Caiado: 12,33%
Caiado recebeu 472 mil votos
9,32 milhões
de votos válidos foram para candidatos que não avançaram ao segundo turno.
3,45 milhões
Augusto Cury
2,68 milhões
Renan Santos
2,61 milhões
Ronaldo Caiado
O que explica o primeiro turno?
Lula obteve enorme vantagem no Nordeste, mas Flávio Bolsonaro
compensou o saldo com margens expressivas principalmente no
Sudeste e no Sul. São Paulo produziu a maior vantagem absoluta
para Flávio; Bahia, a maior para Lula. Minas Gerais terminou
com uma diferença relativamente pequena diante do tamanho de
seu eleitorado.
Fonte: resultados da eleição presidencial de 2026 e base estadual analisada.
Percentuais regionais arredondados. Infográfico: Cristiano Alvarenga.
Sudeste foi decisivo para a vantagem de Flávio
O Sudeste concentra o maior número de eleitores do país e produziu um dos resultados mais relevantes para compreender a liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Considerados os quatro estados da região, o candidato do PL recebeu 51,36% dos votos, enquanto Lula ficou com 39,68%.
A vantagem regional ultrapassou 5,66 milhões de votos.
São Paulo teve papel central nesse resultado. Flávio recebeu aproximadamente 12,92 milhões de votos no estado, contra 9,51 milhões de Lula. A diferença paulista chegou a cerca de 3,42 milhões de votos — superior, sozinha, à diferença registrada entre os dois candidatos em todo o país.
Isso não significa que a eleição presidencial dependa de quem vence determinado estado. Diferentemente de sistemas eleitorais baseados em colégios eleitorais, no Brasil os votos para presidente são somados nacionalmente. Assim, reduzir uma diferença de 1 milhão de votos em um estado produz o mesmo impacto na contagem nacional que ampliar uma vantagem de 1 milhão em outro.
Essa característica ajuda a entender por que São Paulo tende a ter grande peso numérico mesmo quando uma eventual mudança não seja suficiente para alterar quem ficou na primeira posição dentro do próprio estado.
Minas Gerais apresenta uma combinação diferente
Se São Paulo chama atenção pelo tamanho da vantagem de Flávio, Minas Gerais aparece por outro motivo: a diferença entre os dois candidatos foi relativamente pequena diante do tamanho do eleitorado mineiro.
Flávio Bolsonaro recebeu 5.777.548 votos em Minas Gerais, equivalentes a 48,24%. Lula teve 5.188.936 votos, ou 43,33%. A diferença ficou em 588.612 votos.
Ao mesmo tempo, mais de 1 milhão de votos válidos foram destinados aos demais candidatos no estado. Augusto Cury recebeu cerca de 410 mil; Renan Santos, 247 mil; Ronaldo Caiado, 230 mil; e Romeu Zema, 98 mil.
Isso faz de Minas um caso especialmente interessante para acompanhar no segundo turno: entre os grandes colégios eleitorais, o estado combina elevado número de eleitores com uma distância muito menor do que a observada em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul.
O dado, entretanto, não permite concluir para onde migrarão os votos dos candidatos eliminados. O comportamento desses eleitores no segundo turno dependerá de novas escolhas individuais, além de eventuais mudanças no comparecimento.
Nordeste deu a Lula mais de 11 milhões de votos de vantagem
Se Sudeste, Sul e Centro-Oeste explicam boa parte da liderança de Flávio Bolsonaro, o Nordeste mostra por que a diferença nacional permaneceu relativamente pequena.
Lula recebeu aproximadamente 63,77% dos votos válidos da região, contra 30,85% de Flávio. Em números absolutos, foram cerca de 21,49 milhões de votos para Lula e 10,40 milhões para o candidato do PL.
A vantagem regional do petista chegou a aproximadamente 11,10 milhões de votos.
A Bahia teve papel central. Lula recebeu 5,66 milhões de votos no estado, equivalentes a 66,18%, enquanto Flávio obteve 2,44 milhões, ou 28,53%. A diferença favorável ao candidato do PT ultrapassou 3,22 milhões.
Ceará, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe e Alagoas também deram vantagem a Lula.
A leitura nacional, portanto, mostra uma espécie de compensação territorial: o Nordeste reduziu grande parte das perdas registradas por Lula nas demais regiões, mas não conseguiu anulá-las completamente.
Sul produziu mais de 5 milhões de votos de vantagem para Flávio
O Sul apresentou o maior percentual regional de Flávio Bolsonaro. O candidato do PL recebeu aproximadamente 60,08% dos votos válidos, enquanto Lula teve 31,28%.
O saldo regional ficou em cerca de 5,04 milhões de votos favoráveis a Flávio.
Santa Catarina apresentou a maior diferença proporcional: 66,65% para Flávio e 25,04% para Lula. No Paraná, o placar foi de 59,91% a 31,20%. No Rio Grande do Sul, Flávio alcançou 55,64%, contra 35,73% de Lula.
Somados, os três estados praticamente produziram uma vantagem equivalente à registrada em todo o Sudeste, apesar de terem eleitorado consideravelmente menor.
Norte esconde disputas muito diferentes
O resultado agregado do Norte foi mais equilibrado. Flávio recebeu aproximadamente 49,15% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 44,65%. O saldo regional foi de aproximadamente 459 mil votos para o candidato do PL.
O número geral, porém, esconde situações bastante diferentes.
No Amapá, por exemplo, ocorreu praticamente um empate: Lula recebeu 212.503 votos e Flávio, 212.278. Apenas 225 votos separaram os candidatos.
No Amazonas, Lula ficou à frente por cerca de 70 mil votos. No Pará, sua vantagem chegou a aproximadamente 263 mil.
Em outros estados nortistas, entretanto, Flávio abriu margens suficientemente grandes para inverter o saldo regional. O contraste mostra que o Norte não apresentou a mesma uniformidade observada, por exemplo, no Nordeste ou no Sul.
Goiás concentra uma das maiores votações de um candidato eliminado
O Centro-Oeste deu a Flávio Bolsonaro 56,51% dos votos válidos, contra 32,62% de Lula. A diferença regional ficou próxima de 2,17 milhões.
Goiás apresentou uma característica própria. Além dos 53,60% obtidos por Flávio e dos 31,06% registrados por Lula, Ronaldo Caiado alcançou 12,33% dos votos no estado — aproximadamente 472 mil.
O desempenho é muito superior aos 2,18% registrados por Caiado nacionalmente e demonstra por que os votos dos candidatos eliminados não devem ser tratados como um bloco homogêneo.
Os candidatos apresentaram distribuições geográficas e perfis eleitorais distintos. Por isso, qualquer exercício sobre o segundo turno precisa separar matemática de comportamento eleitoral.
Mais de 9 milhões de votos voltam ao centro da disputa
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, os demais candidatos somaram aproximadamente 9,3 milhões de votos válidos.
Augusto Cury teve cerca de 3,45 milhões; Renan Santos, 2,68 milhões; e Ronaldo Caiado, 2,61 milhões. Juntos, os três concentraram aproximadamente 94% dos votos destinados aos candidatos que ficaram fora do segundo turno.
Esses números ajudam a dimensionar a nova configuração eleitoral, mas não permitem presumir transferência automática.
Há eleitores que podem escolher Lula, eleitores que podem optar por Flávio, pessoas que podem votar branco ou nulo e outras que podem não comparecer. Também pode ocorrer movimento entre eleitores que votaram nos próprios finalistas no primeiro turno.
Qual é a matemática necessária para eliminar a diferença?

É possível, entretanto, fazer um exercício puramente matemático.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno aproximadamente 2,22 milhões de votos à frente de Lula. Considerando cerca de 9,3 milhões de votos dados aos demais candidatos e imaginando, apenas para efeito de cálculo, que todos os eleitores de Lula e Flávio repetissem seus votos, o candidato do PT precisaria receber algo próximo de 62% dos votos que foram para os candidatos eliminados para superar a diferença.
Nesse cenário hipotético, Flávio receberia aproximadamente 38% desse grupo.
Não se trata de projeção eleitoral. O cálculo serve apenas para mostrar o tamanho matemático da diferença que precisa ser compensada.
Outro modo de visualizar a distância é observar mudanças diretas entre os dois candidatos. Como cada eleitor que passasse de Flávio para Lula retiraria um voto de um lado e acrescentaria outro ao adversário, aproximadamente 1,11 milhão de mudanças líquidas seriam suficientes para eliminar uma diferença de 2,22 milhões, caso todo o restante permanecesse exatamente igual.
Onde está a diferença entre primeiro e segundo turno
O mapa do primeiro turno permite identificar áreas que tiveram maior peso na construção do resultado, mas não determina o comportamento do eleitor no segundo.
São Paulo aparece como o maior componente da vantagem absoluta de Flávio. Minas Gerais apresenta diferença proporcionalmente menor e grande quantidade de votos destinados a terceiros candidatos. O Nordeste continua sendo a principal fonte de vantagem de Lula, enquanto o Sul produziu uma das maiores margens favoráveis ao candidato do PL.
O resultado também mostra que uma eventual mudança nacional não exige necessariamente que um candidato passe a vencer estados que perdeu no primeiro turno. Reduções de diferenças em grandes colégios eleitorais e ampliação de vantagens onde já existe liderança podem produzir o mesmo efeito na soma nacional.
Por isso, mais do que contar estados em azul ou vermelho, o segundo turno deverá ser acompanhado pelo saldo de votos produzido em cada região.
É essa conta que explica o primeiro turno: Lula saiu do Nordeste com vantagem superior a 11 milhões de votos, mas Flávio Bolsonaro acumulou aproximadamente 13,3 milhões de saldo nas outras quatro regiões. O encontro desses dois movimentos produziu a diferença nacional de pouco mais de 2,2 milhões que separou os candidatos.
Flávio Bolsonaro e Lula voltam a disputar a Presidência da República no segundo turno das Eleições 2026, marcado para 25 de outubro.
Metodologia: os cálculos regionais foram realizados a partir dos resultados estaduais do primeiro turno. Os percentuais foram arredondados. Simulações sobre o segundo turno são exercícios matemáticos e não representam previsão de comportamento eleitoral ou transferência automática de votos.

